Açores, Portugal, junho de 2021
Alguns fundeadouros você esquece na próxima passagem. Horta não é um deles.
Chegando a Horta, Faial — o fundeadouro com que todo velejeiro do Atlântico sonha.
Chegamos no meio da noite, cobertos de sal e de olhos arregalados após a tempestade que contamos no post anterior — e do escuro surgiu um bote. Dentro dele: Michael e Jill do S/V Gerty, o "comitê de boas-vindas" que mencionamos naquela época, segurando uma garrafa de champanhe e um chip de celular. Velejadores de verdade sabem exatamente do que você precisa depois de um oceano: borbulhas para comemorar e internet para descobrir o que o mundo tinha feito consigo mesmo enquanto você estava fora. Era época de COVID; nem tínhamos feito o despacho ainda. Comemoramos assim mesmo, ali mesmo no cockpit, e nos tornamos amigos para a vida no processo. Seres humanos extraordinários.
Michael e Jill do S/V Gerty atracados no escuro — champanhe, um chip de celular e uma amizade para a vida toda.
O despacho alfandegário foi um teatro à parte. Na manhã seguinte, um bote laranja se aproximou trazendo duas figuras em macacões brancos completos — luvas, capuz, tudo — só para fazer o nosso check-in.
A equipe de check-in COVID ao lado do Oroboro — EPIs completos num bote laranja no Atlântico.
Se você viu E.T., a cena em que cobrem a casa com uma tenda: era exatamente assim que estávamos, fundeados no Atlântico. Os testes de verdade vieram depois, no hospital da cidade, onde Yuka foi testada como todo mundo. Surreal, tudo isso. Os resultados voltaram negativos, e as ilhas eram nossas.
Yuka no hospital de Horta — o teste PCR de COVID que abriu as portas das ilhas.
E que ilhas. A primavera nos Açores é de uma beleza absurda — tudo exuberante e verde depois de duas semanas de azul, hortênsias ladeando as estradas tão espessas que você dirige por corredores delas.
Hortênsias azuis e samambaias-arbóreas em Furnas — a primavera nos Açores são corredores de roxo e azul.
E o asfalto! Liso, sinuoso, sem um buraco no arquipélago. Nunca senti tanta falta da minha Ducati. Exploramos de carro e de ferry: subimos até a Caldeira e percorremos os vinhedos, onde gerações de pessoas construíram pequenos terraços de pedra para proteger cada videira do vento.
Vinhedos com muros de pedra no Pico — gerações de trabalho para proteger cada videira do vento atlântico.
Adega na ilha do Pico — pedra de lava negra, portas vermelhas, nenhuma linha reta em lugar algum.
Arquitetura açoriana tradicional — pedra vulcânica negra e venezianas vermelhas, ilha do Pico.
O vinho é incrível. Philippe — o melhor tripulante que se pode desejar numa travessia oceânica, e um francês — conduziu um rigoroso levantamento pessoal de todos os queijos que as ilhas produzem e se declarou satisfeito.
Pastagem açoriana exuberante, muros de pedra, névoa descendo pelos morros — a razão pela qual o queijo é tão bom.
A Caldeira do Faial — uma cratera vulcânica de 2 km de largura, com mata densa descendo direto para o mar.
Peter Café Sport em Horta — tradição de chegada dos velejadores desde 1918, gin tônica obrigatório.
Fizemos as coisas sagradas também: gin tônica no Peter Café Sport, e o nosso mural do Oroboro pintado no molhe de concreto da marina de Horta, num bom lugar. A tradição diz que uma tripulação que não deixa uma pintura coleciona azar; não íamos arriscar. Fico me perguntando se ainda está lá, ou se algum barco mais novo já pintou por cima de nós.
Yuka pintando o mural do Oroboro no molhe de Horta — junho de 2021.
O mural do Oroboro finalizado — Yuka, Francesco, Philippe, 2021.
De Faial seguimos para São Miguel e passamos alguns dias por Ponta Delgada antes que o calendário nos alcançasse. Poderíamos ter ficado um mês — fácil. Mas a Sicília estava reservada para o inverno e todo o Mediterrâneo ocidental se estendia entre nós e ela, então fomos embora às pressas, do jeito que você sempre se arrepende de fazer. O que lembro da partida não é a partida em si: é o nó no estômago por causa do que nos esperava na costa portuguesa, onde orcas tinham estado atacando os lemes de veleiros a temporada toda. Esse pensamento me acompanhou o caminho todo rumo a leste. Mas essa é a próxima história.
Oroboro em Ponta Delgada, São Miguel — uma das melhores marinas do Atlântico.
Sete Cidades, São Miguel — lagoas gêmeas de cratera onde o verde dos Açores encontra o azul do Atlântico.
Os Açores podem ser o período mais feliz que já vivi nessa viagem. Sem arranha-céus, sem turismo de massa, apenas ilhas verdes e gente acolhedora que ainda não foi descoberta. Que os influenciadores nunca os encontrem.
S/V Oroboro GPS track — Azores, Portugal — May–Jun 2021 • GPS data from Raymarine chartplotter • Map © OpenStreetMap contributors
Todos os fundeadouros — Açores, maio–jun 2021
Duas ilhas de escala no meio do Atlântico a caminho da Europa.
| Parada | Data | Notas |
|---|---|---|
| Horta — Faial | maio–jun 2021 | Recepção do S/V Gerty · Peter Café Sport · mural do Oroboro no molhe |
| Ponta Delgada — São Miguel | jun 2021 | Sete Cidades · uma das melhores marinas do Atlântico |
Mapas de fundeadouros
Cartas detalhadas de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), com sobreposição da trilha GPS.
Horta — Faial
Ponta Delgada — São Miguel
Dados de mapa © OpenStreetMap contributors. Trilhas GPS do Raymarine chartplotter, arquivadas em maio–junho de 2021.