Fortaleza, setembro de 2019
A etapa de Natal a Fortaleza foi agradável no começo, mas muito difícil quando nos aproximamos de Fortaleza.
Em primeiro lugar, Fortaleza é uma cidade muito inóspita e perigosa. Há apenas uma marina segura para deixar o barco. Há relatos de embarcações sendo roubadas duas vezes na mesma noite quando fundearam em frente ao porto da cidade.
Fortaleza, o perigoso porto
A "marina segura" se chama "Marina Park" e faz parte de um hotel que o velejador francês Michel Ballette descreve em seu livro-piloto (o único roteiro náutico do Brasil disponível em inglês) da seguinte forma:
"A marina está localizada em frente a um hotel de luxo, um longo edifício branco de 4 andares que é fácil de avistar [...] A marina comporta cerca de cem embarcações."
Não sei bem a que tipo de "luxo" Michel Balette está acostumado, mas o hotel está bastante deteriorado, com um saguão que me lembra hotéis em decadência em Reno, Nevada, e uma piscina mediana. Em mais de uma semana, não vi mais do que alguns poucos hóspedes.
De qualquer forma, as tarifas da marina são simplesmente absurdas. Não há pontão, nem água, nem eletricidade.
Não consigo ver nenhum motivo para os veleiros pararem em Fortaleza — deveriam todos seguir direto para a Guiana Francesa. Além de nós, havia uma lancha do Alabama e um veleiro de Cabo Verde. Os poucos outros barcos na marina, fui informado, eram embarcações confiscadas que as autoridades deixam apodrecer ali por sabe-se lá quantos anos antes de leiloá-las.
A cidade de Fortaleza em si não tem muito a oferecer, exceto pelo seu calçadão à beira-mar. Por isso ficamos apenas uma semana, só para esperar Philippe, nosso amigo brasileiro/suíço/francês, que se juntaria a nós como tripulante até Trinidad e Tobago.
Tchau, Brasil — você nos tratou muito bem. Fico feliz de não termos dado ouvidos a todas as pessoas que diziam que éramos loucos por velear para o Brasil. Nada nos aconteceu, nunca nos sentimos inseguros e curtimos imensamente este país. A natureza, a comida e, especialmente, as pessoas. Tivemos nossos desafios: apesar de ter uma das maiores costas do mundo, este país não é lá muito amigável para veleiros. Correntes traiçoeiras, recifes, marés, frentes frias. Navegar ao longo da costa foi muito desafiador, com pouquíssimos portos onde parar em caso de emergência. Velear à noite, com todas as jangadas e saveiros sem luzes, é extremamente exigente. Encontrar peças de reposição, com os 100% de impostos de importação impostos pelo governo, é muito difícil e caro. Toda a burocracia de check-in e check-out em cada cidade com a Marinha. Leis complicadas para embarcações e passaportes.
Mas conseguimos. Acho que é tudo uma questão de atitude. A Marinha, a Receita Federal, a Polícia — todos nos trataram com justiça. Um país incrível, que não merece sua má reputação. Passamos 7 belos meses no Brasil. Esperamos voltar um dia.
Memórias que não têm preço. Mas agora é hora de virar a página.
Caribe, lá vamos nós!
Trilha GPS do S/V Oroboro — Fortaleza, Brazil — Nov 2019 • Dados GPS do plotador Raymarine • Mapa © OpenStreetMap contributors
Todos os fundeadouros — Fortaleza, nov 2019
A última parada no Brasil antes da travessia para a Guiana Francesa — 7 meses e até logo.
| Parada | Data | Observações |
|---|---|---|
| Marina Park — Fortaleza | nov 2019 | Última parada no Brasil · aguardando Philippe como tripulante · despedida após 7 meses no Brasil |
Mapas de fundeadouros
Carta náutica ampliada da Marina Park de Fortaleza.
Marina Park — Fortaleza
Dados cartográficos © OpenStreetMap contributors. Trilhas GPS do plotador Raymarine, arquivadas em novembro de 2019.