Itacaré, maio de 2019

Saímos de Ilhéus às 3 da manhã para conseguir chegar a Itacaré na maré alta. A cidade e o Iate Clube não nos impressionaram nada. A chuva também não ajudou. Desculpe, Jorge Amado! Quem sabe em outra oportunidade.

Itacaré fica na foz do Rio da Contas, e as cartas náuticas infelizmente não são precisas para esse destino. Para quem está acostumado com as cartas da costa oeste dos EUA como eu, olhar para as cartas do Brasil pode ser um choque ao perceber o quanto elas são aproximadas.

A entrada de Itacaré é marcada por uma luz no topo de um recife, com bancos de areia, correntezas fortes e ondas quebrando. Tínhamos desenhos da entrada e alguns waypoints, mas não confiávamos neles. Nosso lema é "considere todas as cartas erradas até que se prove o contrário".

A melhor coisa a fazer nesses casos é ser guiado para dentro por um pescador. Por isso, torcemos para encontrar um ao chegar lá.

O que também nos preocupava era a presença das chamadas Baronesas. Baronesas são como ilhas flutuantes de plantas entrelaçadas que descem o rio em massa após chuvas fortes. Podem ter até um metro de espessura abaixo da água e, dependendo do tamanho, podem pesar várias toneladas. As Baronesas são perigosas por diversas razões:


  • Carregadas pela correnteza, elas se prendem na corrente de âncora, acumulam-se na proa e ao redor do barco inteiro, podendo até entupir o hélice. Ficaria impossível içar a âncora e o barco aprisionado pode ser arrastado pelo peso adicional considerável.

  • As Baronesas podem carregar cobras, que sobem a bordo pelos galhos que alcançam a proa ou pela corrente de âncora.


Para se livrar dessas grandes massas de vegetação, usa-se um facão para cortá-las ao longo da corrente e dividi-las em duas partes, de modo que possam escapar por cada lado da corrente. Torcemos muito para não precisar lidar com isso.

De qualquer forma, assim que avistamos a luz do recife em Itacaré, também vimos um barco de pesca saindo. Perguntamos se ele podia nos guiar para dentro, e ele disse para esperarmos meia hora lá, pois ia buscar suas redes. Como prometido, meia hora depois ele estava de volta e nos guiou para dentro. A entrada foi menos angustiante do que em Porto Seguro, mas ainda assim não foi fácil.

Fundeamos em 3 metros de água, entre outros barcos de pesca. O fundeadouro era muito bem protegido da swell e do vento, mas as correntezas eram muito fortes. Não colocamos âncora de popa, porque havia espaço suficiente para girar. Nem precisava dizer: éramos as únicas embarcações a vela.

No dia seguinte, uma pequena baronesa começou a se acumular em volta da bridalha da âncora, então tive que ir à cidade comprar um facão (facão em português). Sempre quis ter um — é muito útil também para abrir cocos... Aqui está uma foto da baronesa que se enrolou na nossa corrente de âncora. Não era enorme, mas ainda assim deu um trabalhão para se livrar dela.

Fundeadouro de Itacaré
Photo 1 · Itacaré, Brazil · 13 May 2019
Fundeadouro de Itacaré

A cidade de Itacaré é muito charmosa. No começo, de onde fundeamos, não parecia grande coisa, mas assim que desembarcamos e caminhamos em direção à área chamada Pituba, uma cidade completamente diferente se abriu diante dos nossos olhos. Itacaré é uma típica cidade de surfe com uma energia muito boa — me lembra muito Santa Cruz, na Califórnia.

No dia seguinte fomos visitar uma Fazenda de Cacau. Nunca tinha visto um cacaueiro ou o fruto antes na vida. Nessa viagem, há incontáveis coisas do tipo "primeira vez na minha vida". Ficamos dizendo isso com frequência. Foi muito interessante aprender como colher e processar o fruto para fazer chocolate. E na varanda de muitas casas nessa região do Brasil dá para ver cacau deixado para secar ao sol, assim como no sul da Itália vê-se as pessoas fazendo tomate seco.

Uma coisa interessante que aprendi é que os mosquitos — sim, esses insetos horríveis transmissores de doenças — são os principais polinizadores do cacaueiro. Ainda odeio mosquitos, mas pelo menos agora sei que a existência deles tem alguma utilidade.

No dia seguinte organizamos uma expedição à cachoeira, chamada Cachoeira em português brasileiro. Levamos conosco dois meninos locais que não tinham escola naquele dia, porque havia uma grande greve nacional no Brasil contra a decisão do governo do presidente Bolsonaro de cortar o orçamento da educação em 30%. Desnecessário dizer que nenhum dos dois sabia por que era a greve. Para eles, era apenas um dia de férias inesperado.

No lado oceânico da cidade havia várias praias de surfe com algumas belas pousadas. Parecia haver algum acampamento de surfe feminino ou algo assim.

Foi muito divertido assistir às crianças brincando na praia.

 

Depois de alguns dias em Itacaré, estávamos prontos para navegar para o norte. O próximo destino será a baía de Camamù. Vamos explorar o rio e tentar chegar a uma bela cachoeira.

 

Photo 2 · Itacaré, Brazil · May 2019
Trilha GPS do S/V Oroboro — Itacaré, Brazil — May–Jun 2019 • Dados GPS do chartplotter Raymarine • Mapa © OpenStreetMap contributors

Todos os fundeadouros — Itacaré, maio–junho de 2019

Uma cidade de surfe na foz do Rio da Contas, alcançada com a ajuda de um pescador local.

Parada Data Notas
Itacaré — Rio da Contas maio–jun 2019 Guiados para dentro por pescador local · baronesas flutuantes · passeio em fazenda de cacau

Mapas dos fundeadouros

Carta ampliada do fundeadouro no rio de Itacaré.

Photo 3 · Itacaré, Brazil · May 2019
Itacaré — Rio da Contas

Dados do mapa © OpenStreetMap contributors. Trilhas GPS do chartplotter Raymarine, arquivadas em maio–junho de 2019.