Jaguaripe, Bahia de Todos os Santos — Julho de 2019
Depois de semanas ancorados em frente a Salvador, partimos para explorar o extremo sul da Bahia de Todos os Santos — a maior baía do Brasil, pontilhada por 56 ilhas. Atracamos o bote em uma pequena vila no município de Jaguaripe, região cujo nome tupi significa rio do jaguar.
A baía carrega um dos topônimos mais evocativos do Brasil. A tradição conta que o navegador português Américo Vespúcio entrou nessas águas em 1º de novembro de 1501 — Dia de Todos os Santos — e as batizou em honra à festa. O que o esperava era um imenso mar interior ladeado pela Mata Atlântica, lar do povo Tupinambá, que havia séculos vivia ali antes de ser engolido pela onda colonial.
No século XVII, os holandeses ocuparam este canto da Bahia durante a Guerra Luso-Holandesa (1624–1654). Os engenhos de açúcar trocaram de mãos. O rio Jaguaripe tornou-se um corredor de contrabando e conflito. Três séculos depois, caminhando pelas ruelas de pedra desta pequena vila às margens da baía, esse passado turbulento se faz muito presente nas paredes coloniais desbotadas e no ritmo pausado da vida.
A grande surpresa foi o bar — ED3. Construído em torno de um contêiner adaptado, enfeitado com bandeirolas de Festa Junina, tinha uma cervejaria artesanal de verdade num quarto dos fundos: tanques de fermentação em aço inoxidável, manômetros e tudo mais. Alguém nessa pequena vila havia decidido fazer cerveja artesanal. O barco de pesca Dengosa — aposentado do serviço — repousava dentro do bar como mesa. Só no Brasil um barco de pesca vira mobília.
Do lado de fora do bar ED3 — bandeirolas de Festa Junina sobre uma fachada colonial cor de laranja
O barco de pesca Dengosa, aposentado da baía e reaproveitado como peça central do bar
Dentro do ED3 — o balcão do bar é um contêiner reaproveitado; uma cervejaria artesanal se esconde no cômodo dos fundos