Salinas da Margarida, Bahia de Todos os Santos — 5 de julho de 2019
O nome conta a história: salinas são os tanques de evaporação de sal, e esta pequena cidade na margem leste da Bahia de Todos os Santos construiu sua identidade sobre uma mercadoria que um dia definiu riqueza no Brasil colonial. O sal conservava a carne e o peixe que alimentavam o interior, sustentava a economia das plantações e era taxado com tanto rigor quanto o açúcar. As rasas planícies de maré ao longo desse trecho do litoral eram ideais para as salinas, e por séculos os cristais brancos que dali saíam chegavam às mesas e aos livros de comércio de Salvador, do outro lado da água.
Quando a produção industrial tornou as salinas locais obsoletas, a cidade simplesmente ficou. O que restou foi a calçada — um calçadão à beira-mar pavimentado com o tradicional mosaico português de pedras pretas e brancas, com "SALINAS" soletrado nos paralelepípedos em letras grandes o suficiente para se ler de um barco passando ao largo. Uma fileira de restaurantes ao ar livre ocupa uma das bordas do calçadão, sob um telhado de zinco, com mesas de plástico, cerveja gelada e moqueca feita com o que saiu da baía naquela manhã.
A igreja matriz fica numa extremidade do calçadão — uma construção do estilo eclético do início do século XX que as cidades baianas tanto apreciam: parte barroco, parte neoclássico, inteiramente exuberante, com uma única torre central flanqueada por torres menores, cada nicho preenchido por um santo. Nossa Senhora das Candeias segura suas velas lá dentro. A festa das Candeias em 2 de fevereiro é também o dia de Iemanjá no calendário do Candomblé, quando os baianos levam flores e barquinhos ao mar para a deusa das águas salgadas. Uma cidade erguida à beira da baía, nomeada pelo que o mar deixa quando evapora — Salinas da Margarida parece um lugar adequado para essa duplicidade de devoções.
Ancorámos em frente ao calçadão no período da tarde. Na maré baixa, a praia revelou uma multidão de coloridos barcos de pesca de madeira puxados sobre a areia — vermelhos, verdes, azuis — nas tintas de alto brilho que os pescadores baianos tanto gostam. Caminhamos pela calçada, comemos moqueca em um dos restaurantes cobertos e observamos a cidade seguindo seu ritmo de sexta-feira. Na hora dourada já estávamos de volta a bordo, Yuka deitada na rede do trampoline com um livro, enquanto o campanário da igreja captava a última luz sobre a água calma.
O calçadão à beira-mar — mosaico de pedras pretas e brancas com "SALINAS" soletrado nos paralelepípedos, e uma fileira de restaurantes de moqueca ao fundo
A igreja matriz — fachada eclética do início do século XX, de espírito barroco, com um santo em cada nicho
Maré baixa na praia dos pescadores — bateiras de madeira tradicionais nos vermelhos e verdes de alto brilho que os pescadores baianos preferem, com Oroboro fundeado ao fundo
Hora dourada no fundeadouro — Yuka lê na rede do trampoline enquanto a cidade e seu campanário brilham do outro lado da baía