Oceano Atlântico Sul, janeiro de 2019
Estávamos há dez dias fora de St Helena, em algum ponto fundo do Atlântico Sul, sem terra em nenhuma direção por mais de mil milhas. O oceano estivera tão vazio por tanto tempo que quase havíamos parado de esperar qualquer coisa diferente. Só Oroboro, as ondas, o alísio e as estrelas.
Então o VHF crepitou.
Uma voz — calorosa, com um sotaque húngaro-americano inconfundível — surgiu no Canal 16. Ele nos havia avistado no AIS e nos chamou. Apresentou-se: Istvan Kopar, velejando no Puffin, competindo na Golden Globe Race.
Istvan Kopar — velejador solitário circunavegador, Golden Globe Race 2018. Foto: koparsailing.com / Török Brigitta
No meio do oceano, numa manhã aleatória de janeiro, estávamos conversando com um homem que havia deixado a França seis meses antes e se encontrava agora por volta do Dia 200 de uma circunavegação solitária e sem escalas.
A Golden Globe Race
A Golden Globe Race é uma recriação da corrida original do Sunday Times de 1968–69 — aquela que transformou Robin Knox-Johnston em lenda e inaugurou a era da vela oceânica solitária. Disputar a GGR moderna é voltar no tempo: sem GPS, sem telefone via satélite, sem chart plotter, sem e-mail. Navegação por sextante e cartas náuticas de papel. Piloto automático somente por leme de vento. Comunicação por rádio SSB. Os barcos devem ser projetos clássicos construídos antes de 1988.
A edição de 2018 partiu no dia 1º de julho de Les Sables-d'Olonne, na França. Dezoito velejadores largaram pela rota dos clippers: ao sul passando pelo Cabo da Boa Esperança, pelo Oceano Austral, contornando o Cabo Horn, e de volta ao norte pelo Atlântico. Aproximadamente 30.000 milhas, sozinhos, do jeito antigo. Apenas cinco chegariam ao fim.
Istvan havia dobrado o Cabo Horn no Ano-Novo — 1º de janeiro de 2019. Ele nos contou que havia espalhado as cinzas do pai por lá.
Cabo Horn visto do convés do Puffin — Kopar dobrou o Horn no Ano-Novo, poucas semanas antes de nossos caminhos se cruzarem. Foto: koparsailing.com
Filmei a troca pelo rádio com meu celular. Você pode assistir abaixo — granulado e de baixa fidelidade, com legendas porque o rádio comprime as vozes em algo a meio caminho entre um ser humano e uma chaleira. Mas ouça além da estática e você vai perceber: duas tripulações, no meio do Atlântico, se encontrando por acaso.
Nossa troca pelo rádio VHF com Istvan Kopar a bordo do Puffin — em algum ponto do Atlântico Sul, na metade de sua circunavegação
Navios que se cruzam na noite
O oceano é imenso, e a chance de dois veleiros pequenos estarem dentro do alcance de VHF um do outro — cerca de 25 milhas — em qualquer ponto do Atlântico Sul é infinitesimalmente pequena. O fato de estarmos ali, naquela manhã específica, seguindo em direções opostas pelo mesmo trecho de água, ainda parece ter algum significado.
Conversamos por uns vinte minutos. Ele nos contou sobre os problemas no leme que o haviam assombrado desde os primeiros dias da corrida, sobre os reparos que fizera no mar, sobre Cabo Verde onde quase havia parado. Sobre o Cabo Horn no Ano-Novo, sozinho no fim do mundo. Ele perguntou sobre nossa travessia, de onde vínhamos, para onde íamos.
Então ele mencionou água. Os barcos da GGR não carregam dessalinizador — as regras proíbem tecnologia moderna, então os skippers dependem inteiramente da chuva para reabastecer seu suprimento de água potável. Fazia muito tempo que não chovia, e Istvan estava com o estoque baixo.
Tínhamos nossos próprios problemas com água — nosso dessalinizador havia quebrado dias antes e também estávamos racionando — mas oferecemos assim mesmo. Pareceu a única coisa humana a fazer: dois barcos sozinhos no oceano, um deles com sede.
Ele nos agradeceu e recusou. Aceitar água de outra embarcação o desclassificaria da corrida. Depois de 200 dias no mar e ainda 30.000 milhas para contabilizar, ele não ia deixar isso acontecer por causa de um galão de água. Esperaria a chuva.
E então nos despedimos, o rádio ficou em silêncio e o oceano voltou a ficar vazio, cada um de nós seguindo em sua própria direção. A dele: ao norte em direção ao equador, depois à França. A nossa: a oeste em direção ao Brasil.
Nossas rotas se cruzando no Atlântico Sul: Oroboro (azul) rumo a oeste de St Helena ao Brasil; Puffin (laranja) rumo ao norte após dobrar o Cabo Horn (×) no Ano-Novo
Istvan Kopar terminou a Golden Globe Race no dia 21 de março de 2019, em quarto lugar — 263 dias após deixar a França. Dos 18 que partiram, apenas 5 chegaram. Jean-Luc Van Den Heede, 73 anos, venceu a prova.
Vale pausar para refletir sobre o que a Golden Globe Race é, e o que ela não é. Seu gêmeo espiritual — e oposto polar — é a Vendée Globe: também solitária, também sem escalas, também contornando os mesmos três cabos. Mas a Vendée Globe é disputada em máquinas planantes IMOCA 60 repletas de satélites, pilotos automáticos e computadores de bordo. Armel Le Cléac'h venceu a Vendée Globe de 2016 em 74 dias. O vencedor da GGR de 2018 levou 211. Mesmo oceano. Mesmos cabos. A diferença entre as duas corridas é a diferença entre um carro de Fórmula 1 e um carro de rali dos anos 1960 com os vidros abertos — uma é sobre o que a tecnologia pode fazer, a outra é sobre o que uma pessoa consegue suportar.
Pensamos muito nisso nos meses seguintes. E então, algumas semanas após chegar ao Rio de Janeiro, um belo veleiro de regata azul deslizou silenciosamente para o berço ao lado do nosso na Marina da Glória. Era o Hugo Boss IMOCA 60 — comandado por Alex Thomson, que havia terminado em segundo lugar na mesma Vendée Globe sobre a qual acabávamos de falar. Dois encontros, duas corridas, duas visões completamente diferentes do que significa velear sozinho ao redor do mundo. Essa história está aqui.
Você pode acompanhar as aventuras de Istvan em koparsailing.com. Ele ainda está lá fora.