Oceano Atlântico Sul, janeiro de 2019
Era o Dia 8 do trecho de St Helena ao Brasil. Posição: 19°55'S, 024°17'W. No coração do Atlântico Sul, sem terra em nenhuma direção por mais de mil milhas.
Estávamos navegando continuamente havia 37 dias. O dessalinizador havia quebrado três dias antes, e estávamos racionando água para sobreviver às 1.100 milhas náuticas restantes até o Brasil. A Ilha Trindade — um remoto posto avançado da Marinha do Brasil, onde vivem cerca de 30 soldados e um punhado de cientistas — estava em algum ponto à nossa frente, e esperávamos que nos fornecessem água potável e diesel. Era uma navegação intensa. Não perigosa, mas exigente. Cada dia trazia um novo problema a resolver.
Naquela noite, entre as rajadas de chuva, eu estava sozinho de quarto. Yuka estava dormindo. O céu abriu por um momento — do jeito que acontece no oceano, súbita e completamente — e eu o vi.
Um arco de luz pálida, de um horizonte ao outro.
Um arco-da-lua.
Um arco-da-lua é o mesmo fenômeno óptico que um arco-íris. A luz da lua penetra nas gotículas de água suspensas no ar, refrata, reflete na parte posterior da gotícula e sai em um ângulo que separa os comprimentos de onda — a mesma física que Descartes descreveu em 1637. A única diferença é a fonte de luz. A lua, em fase cheia, é aproximadamente 400.000 vezes mais fraca que o sol. Ainda assim, é suficiente para formar um arco-íris. Mas o olho humano, operando no modo escotópico de baixa luminosidade, não consegue captar as cores — elas existem na física, mas são invisíveis para nós. O que se vê é um arco branco. Tênue, nítido, inconfundível.
Uma câmera com longa exposição consegue registrar as cores. Tentei com meu iPhone. O barco estava se movendo, e não consegui. Não importa.
O que recebi foi algo mais difícil de perder.
Fiquei ali por um longo tempo, contemplando. Cinco semanas no mar. 2.584 milhas náuticas de Cape Town. Um dessalinizador quebrado. Água racionada. Quartos noturnos solitários de três horas. E o oceano decidindo, exatamente naquele momento, dar um espetáculo que a maioria dos velejadores jamais vê em uma vida inteira de travessias.
Na manhã seguinte, escrevi duas linhas sobre isso no diário de bordo: "Também, entre as rajadas de chuva durante a noite, vi um arco-íris lunar muito raro." E imediatamente voltei aos ajustes de vela e aos cálculos de água.
É assim a navegação oceânica. Você vê algo extraordinário e volta ao trabalho.
Dois dias depois avistamos a Ilha Trindade no horizonte — um pico vulcânico recortado emergindo diretamente do mar. A Marinha do Brasil foi gentil o suficiente para se comunicar conosco pelo rádio, mas o swell estava forte demais para atracar com segurança no cais deles. Ficamos em pane seca durante a noite, esperamos até o amanhecer, voltamos a fazer contato por rádio e por fim decidimos que era arriscado demais. Deixamos Trindade às 6h30 da manhã, pescamos dois atuns-albacora de 14 quilos nas linhas de tróia, e continuamos velejando para o oeste.
Chegamos ao Brasil com água sobrando.
O arco-da-lua entrou no resumo da travessia, sob Experiências únicas. Uma linha. Mas ocupa um lugar diferente na memória em relação aos peixes, às rajadas de chuva, aos equipamentos quebrados, ao participante do Golden Globe com quem falamos pelo rádio em algum ponto ao largo da plataforma continental brasileira.
Certas coisas o oceano te dá, e você as carrega por muito tempo.