Trindade, janeiro de 2019

Oito dias após deixar St Helena, o drama chegou ao Oroboro: o dessalinizador começou a vazar pela Clark Pump! Um vazamento enorme!

Na minha lista de sistemas a instalar no Oroboro, o dessalinizador era prioridade número 1. Vinha antes de tudo. Ter a capacidade de produzir sua própria água é fundamental em um barco destinado a uma circunavegação. Então você pode imaginar como me senti quando o dessalinizador falhou depois de apenas 50 horas de operação. Eu tinha tanto orgulho do nosso Spectra Newport 400 MKII — é para ser o melhor. A Clark Pump é uma peça de engenharia tão interessante que eu achava que jamais falharia. Estava errado.

Não estava preocupado com a segurança, pois tínhamos quase 800 litros de água doce nos nossos tanques e 2 semanas de viagem até o Brasil. Além disso, na nossa bolsa de emergência tínhamos um dessalinizador manual que poderia ser usado em casos extremos.

A primeira decisão tomada foi racionar a água:


  1. A louça deveria ser lavada primeiro em água do mar e depois enxaguada com a quantidade mínima de água doce.

  2. O mesmo com os banhos: primeiro água do mar com sabão, depois enxague com água doce.

  3. O nível dos tanques de água a ser verificado duas vezes ao dia para monitorar o consumo (não mais de 15 litros por pessoa por dia).

  4. Desnecessário dizer que a máquina de lavar não seria utilizada.


A segunda decisão foi diagnosticar o problema e tentar um reparo. Tinha um kit de o-rings sobressalentes a bordo e esperava que o vazamento fosse causado por um o-ring danificado na tampa de extremidade. Mas!

Será que era a atitude certa? Descobrimos que a bomba, apesar do vazamento, ainda conseguia produzir uma quantidade limitada de água doce. Não seria mais seguro gerenciar o vazamento do que tentar um reparo?

Então montamos um sistema primitivo: um balde para coletar a água vazando e uma bomba de porão para jogá-la de volta ao mar.

Dessalinizador Spectra
Photo 1 · Trindade Island, Brazil · January 2019
Dessalinizador Spectra

Usando esse sistema, conseguimos operar o dessalinizador a meia pressão por alguns dias, até que o sistema começou a rejeitar a água porque a salinidade estava muito alta.

Nesse ponto não havia outra opção senão tentar o reparo. Tínhamos 700 litros de água doce nos tanques. Não havia nada a perder tentando consertar. Por sorte, tinha a bordo o manual de manutenção do sistema. Então peguei minhas ferramentas e comecei a retirar a bomba do compartimento:

Reparando o dessalinizador
Photo 2 · Trindade Island, Brazil · January 2019
Reparando o dessalinizador

Depois de conseguir retirar a Clark Pump do compartimento e colocá-la na mesa do cockpit, comecei a desmontá-la. Esperava que o problema fosse um o-ring danificado, mas infelizmente, ao desmontar a tampa de extremidade, percebi que o o-ring estava intacto e que o problema era uma rachadura minúscula (difícil de ver a olho nu) entre as roscas do cilindro de fibra de vidro. Impossível de reparar!

Por precaução, a próxima decisão foi mudar o rumo e velear em direção a uma pequena ilha chamada Trindade. É um pequeno posto avançado da Marinha do Brasil, e minha esperança era que pudéssemos completar os tanques. Era apenas um desvio de 50 milhas náuticas, menos de meio dia em termos de tempo. Com mais 100 litros de água, teríamos uma margem de segurança maior, caso o vento amainasse e fôssemos forçados a reduzir a velocidade.

Chegamos a Trindade depois do escurecer, chamamos a base naval no VHF explicando a situação, e eles nos disseram para aguardar até o amanhecer para que tivessem tempo suficiente de organizar a transferência da água. Na verdade, esse posto é muito primitivo, não há porto na ilha e a única forma de obter água era eles colocarem em galões em um bote pequeno e trazê-la até nós. O tempo também não colaborava, com mar muito agitado e vento forte.

Passamos a noite em capa just off the island aguardando o amanhecer. Mas ao nascer do sol, percebemos que tal operação seria muito difícil: o mar e o vento estavam simplesmente demais. Aproximar um bote pequeno o suficiente para transferir os galões seria complicado, e corríamos o risco de alguém se machucar ou o barco ser danificado. Então desistimos. Agradecemos à Marinha do Brasil e içamos as velas rumo ao Brasil!

Há dois pontos positivos em tudo isso:


  1. Tivemos o privilégio de ver Trindade. Uma ilha linda, fora da rota habitual do Atlântico Sul rumo ao Brasil.

  2. Pescamos dois grandes atuns-rabilho logo ao lado da ilha. Tivemos um ótimo sashimi e sushi.

No restante da viagem, tivemos que fazer o que os marinheiros antigos faziam: economizar água! Parte disso foi até divertido, como tomar banho na rede de proa, onde temos nossa torneira de água do mar, e enxaguar na popa, onde temos nosso chuveiro de água doce.

Tomando banho durante a travessia
Photo 3 · Trindade Island, Brazil · January 2019
Tomando banho durante a travessia

Brasil, lá vamos nós! Se tudo correr bem, devemos avistar Rio em doze dias! E se ficarmos sem água, nossos porões estão cheios de excelente vinho sul-africano.

O que mais se pode querer?

 

 

 

Photo 4 · Trindade Island, Brazil · January 2019
S/V Oroboro GPS track — Trindade Island, South Atlantic — Jan 2019 • GPS data from Raymarine chartplotter • Map © OpenStreetMap contributors

Todas as ancoragens — Trindade Island, Jan 2019

Um desvio não planejado de 50 milhas náuticas até o remoto posto avançado da Marinha do Brasil quando o dessalinizador quebrou.

Parada Data Notas
Trindade Island Jan 2019 Desvio de 50mn no Atlântico Sul · reparo do dessalinizador · pesca de atum de 14kg · navegação em capa ao largo da ilha

Mapas de ancoragem

Carta náutica detalhada de Trindade Island no Atlântico Sul.

Photo 5 · Trindade Island, Brazil · January 2019
Trindade Island

Dados cartográficos © OpenStreetMap contributors. Trilhas GPS do Raymarine chartplotter, arquivadas em janeiro de 2019.