Rio de Janeiro, Brasil, fevereiro de 2019
Para ser honesto, no começo eu não tinha muito interesse em visitar o Rio, especialmente durante o Carnaval. O Rio estava bem lá embaixo na minha lista pessoal de lugares a visitar. Mas meus amigos catalães Joaquin e Monica nos convidaram para navegar até lá como tripulantes no barco deles, um lindo Leopard 45. Como recusar uma oferta dessas?
Joaquin e Monica também tinham amigos de longa data nos visitando, Ricardo e Isabel. Para Yuka e eu, essa viagem de vela como convidados foi também uma imersão total na cultura espanhola (e na culinária). Aprendendo algo novo a cada dia com velejadores muito experientes! Ricardo e Isabel, além de serem ótimos cantores e violonistas e de terem circunavegado em um veleiro clássico de madeira, também são excelentes cozinheiros, e ensinaram Yuka a fazer pão e o Arrós a banda, um prato muito popular ao longo do litoral valenciano da Espanha.
Chegando ao Rio de Janeiro pelo mar
Ricardo enche o cockpit de música numa noite ancorados — baladas catalãs no violão foram a trilha sonora da passagem rumo ao norte, até o Rio
O Museu de Arte Contemporânea de Niterói — o icônico edifício em forma de disco voador de Oscar Niemeyer — visto da água enquanto entrávamos na baía
Bem, mais uma vez acabou sendo uma das melhores decisões das nossas vidas. Gostamos tanto do Rio e da companhia que, em vez de ficar apenas uma semana como planejado, ficamos duas. A duração completa do Carnaval!
Ver o Rio pela primeira vez pelo oceano a bordo de um veleiro é uma experiência única. Vínhamos do sul, então ao amanhecer navegamos primeiro ao longo de Leblon, Ipanema e Copacabana, e quando chegamos à entrada da Baía de Guanabara entendemos por que os primeiros exploradores lhe deram o nome de Rio de Janeiro: realmente parece a entrada da foz de um rio!
A baía é cercada por elementos geográficos espetaculares: o Pão de Açúcar, o Corcovado e os morros da Tijuca. É de tirar o fôlego! Entrar no Rio pelo mar é tão espetacular quanto entrar em San Francisco e ver a ponte Golden Gate pela primeira vez. A baía merece muito ser uma das Sete Maravilhas Naturais do Mundo!
Segundo alguns historiadores, o nome original dado pela expedição à baía era Ria de Janeiro, "Lagoa de Janeiro", e depois houve uma confusão entre a palavra Ria (lagoa) e Rio (rio). Só consigo imaginar como essa baía deve ter sido linda até apenas alguns séculos atrás, quando era um criadouro de baleias.
Infelizmente, hoje ela está gravemente poluída por esgoto, lixo e derramamentos de óleo. Mais de 70% do esgoto dos mais de 12 milhões de habitantes do Rio de Janeiro é despejado sem tratamento na baía. Um verdadeiro desastre ambiental para o qual o governo brasileiro deveria realmente tomar providências.
Atracamos na Marina da Glória, que fica convenientemente próxima ao bairro de Botafogo. É uma ótima marina, e quando chegamos eles estavam montando um telão para exibir a partida entre o Barcellona e o Real Madrid. Poderia haver jeito melhor de receber nossos amigos espanhóis? Claro que não poderíamos perder essa partida!
Assistindo Barcelona x Real Madrid no Brasil
Da Marina, um Uber até Ipanema ou Copacabana custava apenas alguns reais. A gente se divertiu muito visitando Copacabana, Ipanema, o Cristo no Corcovado, o Pão de Açúcar, o jardim botânico e o centro histórico antigo.
Ipanema, Brasil
Carnaval na praia — uma escultura de areia em Copacabana, com o famoso arco de praia e os morros da Tijuca ao fundo
Fizemos tudo o que queríamos, exceto uma coisa: não conseguimos visitar nenhum museu porque todos estavam fechados para o Carnaval! Como pode isso?
Bom, teremos que voltar aqui outra vez quando começarmos a navegar para o norte, então haverá outra oportunidade de visitar os museus!
O Carnaval
O meu guia do Brasil "Moon Handbooks" (não tenho certeza de como o consegui, provavelmente alguém me deu), desencoraja fortemente os turistas a assistir ao Carnaval no Sambódromo, dizendo que "é quente, lotado, com filas intermináveis para comida ruim, cerveja pior ainda e banheiros imundos. Com certeza você vai sentar do lado de gente barulhenta e chata que joga comida e fuma em cadeia o tempo todo".
Dá para imaginar o que eu senti quando Joaquin propôs ir ao Sambódromo. Mais uma vez, fico feliz que fomos, porque estava longe do que o guia dizia, e todos nós nos divertimos muito (e tomamos excelentes Caipirinhas, diga-se de passagem).
Carnaval no Rio de Janeiro
Um carro alegórico desfilando pelo Sambódromo — cada escola de samba apresenta seu show completo em movimento, empurrando os carros à mão pela avenida
O desfile foi espetacular, com carros alegóricos muito elaborados de até 9 metros de altura, empurrados à mão, com cada escola apresentando um enredo diferente.
Durante o Carnaval, a cidade do Rio é provavelmente a cidade mais segura do mundo. Há polícia em todo lugar 24 horas por dia, 7 dias por semana! Nunca nos sentimos inseguros.
Os Blocos
Todos os diferentes bairros do Rio organizam suas próprias festas de carnaval, chamadas de Blocos. O que mais curtimos se chama Sargento Pimenta: eles tocam música dos Beatles com ritmo de samba.
Para saber o que está acontecendo na cidade, é só baixar um aplicativo que informa qual bloco está se apresentando, onde e a que horas. Ótimo recurso.
Esses blocos provocam bastante engarrafamento, porque o bairro inteiro é fechado, mas nada comparado à Highway 101 em direção a San Francisco numa tarde de sexta-feira. E como nos locomovíamos de Uber, não foi nenhum problema.
E claro que havia muitas casas noturnas com música ao vivo pela cidade.
A gente mergulhou de cabeça no Carnaval — pintura no rosto no píer, salões de Carnaval a noite toda, e blocos matinais onde ruas inteiras viravam pistas de dança.
O Carnaval te encontra em todo lugar — até de volta ao barco
Yuka no Lounge Carioca — um dos espaços dedicados ao Carnaval no Rio, aberto a noite toda
Num bloco matinal com os chapéus de cerveja Antarctica — os patrocinadores os distribuíam nas festas de rua maiores
Um carro de bloco passando pelas ruas — as festas de Carnaval de bairro se espalham por todos os cantos do Rio durante as semanas do Carnaval
A multidão num bloco de rua — milhares de pessoas dançando juntas, o bairro inteiro transformado numa pista de dança ao ar livre
A gente se divertiu muito em Ipanema à noite. Ótima comida e ótima música ao vivo! A picanha que comemos na Garota de Ipanema foi a melhor até agora!
Picanha numa churrascaria carioca — o corte bovino mais famoso do Brasil, servido no espeto e fatiado na mesa
La Florentina no calçadão de Copacabana — uma instituição carioca desde 1954, com uma estátua de bronze do poeta da bossa nova Vinícius de Moraes na entrada
Passeios de um dia saindo do Rio
Com duas semanas completas no Rio, tivemos tempo de explorar além da cidade. Fizemos vários passeios de dia memoráveis pela paisagem ao redor.
O Corcovado — o pico onde o Cristo Redentor fica de braços abertos — é uma daquelas coisas que você precisa ver. Um trem de cremalheira sobe pela Floresta da Tijuca até o cume, de onde toda a geografia do Rio se abre lá embaixo: favelas escorregando pelos morros, a Lagoa Rodrigo de Freitas cintilando à luz da tarde e a Baía de Guanabara se estendendo a leste. No Pão de Açúcar você tem o inverso: olhando de volta do cume, Copacabana se curva em um perfeito crescente, emoldurada por montanhas de granito de um lado e pelo Atlântico Sul aberto do outro.
A vista do Corcovado — o Pão de Açúcar se erguendo sobre a Enseada de Botafogo, com Niterói e a Baía de Guanabara se estendendo ao longe
Copacabana vista do Pão de Açúcar — o famoso arco de praia emoldurado pelos morros da Tijuca, uma das grandes vistas do mundo
A uma hora ao norte do Rio de carro, subindo pela Serra da Mantiqueira, fica Petrópolis — o refúgio imperial de montanha onde o Imperador Pedro II passava os verões. A joia da cidade é o Museu Imperial, um palácio neoclássico amarelo-manteiga em meio a jardins formais, hoje um museu do Império brasileiro. Ao redor dele, chalés da era vitoriana e mansões europeias se agrupam no fresco ar serrano. Uma catedral gótica domina a praça principal. O lugar é completamente diferente do Rio das praias e do samba — um lembrete de que o Brasil tem camadas e camadas.
O Museu Imperial — o antigo palácio de verão do Imperador Pedro II, em meio a jardins formais na cidade serrana de Petrópolis
A Catedral de São Pedro de Alcântara — uma catedral gótica que abriga os túmulos da família imperial brasileira
Ouro Preto é mais longe — cinco horas adentrando as montanhas de Minas Gerais — e vale cada quilômetro. Outrora a cidade mais rica das Américas, fonte do ouro que financiou a coroa portuguesa ao longo do século XVIII, hoje é Patrimônio Mundial da UNESCO e uma das cidades barrocas mais belas do mundo. Durante o Carnaval, as ruas de paralelepípedo ficam enfeitadas com serpentinas coloridas entre as fachadas coloniais caiadas, igrejas barrocas se erguem no topo de cada morro, e a cidade toda parece suspensa entre a história e a festa. Descemos a uma das antigas minas de ouro, ainda abertas aos visitantes — uma rede de poços e túneis onde homens trabalhavam no escuro para extrair riqueza que deixava o país por navio.
Uma rua de paralelepípedo em Ouro Preto durante o Carnaval — fachadas coloniais, torres de igrejas barrocas e serpentinas de Carnaval recortando o céu cinzento
Interior de uma das minas de ouro históricas de Ouro Preto — os poços descem pela rocha sólida montanha adentro, ainda abertos a visitantes
Interior da mina de ouro — túneis escavados à mão ao longo de séculos para extrair o minério que financiou a coroa portuguesa e fez de Ouro Preto a cidade mais rica das Américas
Encontrando Alex Thomson
Um dos momentos altos da viagem ao Rio foi quando, certo dia, do nada, um barco lindo atracou silenciosamente ao nosso lado. Para nossa surpresa, era o Hugo Boss, o iate de regata IMOCA Open 60 comandado por Alex Thomson! Exatamente aquele que terminou em segundo lugar na última edição da Vendée Globe, a regata solo ao redor do mundo que acontece a cada quatro anos!
Alex gentilmente concordou em nos deixar visitar o barco (que acabara de ser vendido a uma parte não identificada). Para mim, foi um sonho realizado! Acompanhei de perto a última edição da Vendée Globe dois anos atrás, quando Alex chegou em segundo lugar porque danificou um dos foils.
A Vendée Globe é um percurso de 28.000 milhas náuticas, e Armel Le Cléac'h conseguiu completá-lo dois anos atrás em apenas 74 dias. As instruções da regata são simples: partir de Les Sables d'Olonne, na França, deixar o Cabo da Boa Esperança, o Cabo Leeuwin e o Cabo Horn a bombordo, deixar a Antártida a estibordo e chegar em Les Sables. Mais de 500 astronautas foram lançados ao espaço; menos de 50 velejadores navegaram em solitário, sem escalas, ao redor do mundo, sem assistência. Alex é um deles! Que honra conhecê-lo pessoalmente, de forma casual, num píer em algum lugar do mundo...
Selfie com Alex Thomson, skipper do Hugo Boss Open 60
Depois de duas semanas no Rio, estávamos cansados mas felizes. Era hora de voltar. A navegação de regresso para Ilha Grande foi uma fantástica descida com vento pela popa.
Temos um assunto pendente no Rio. Visitar os museus. Então voltaremos! E da próxima vez, a bordo do Oroboro!