Paraty, Rio de Janeiro — Fevereiro e março de 2019
O ouro foi a construção e a ruína de Paraty. No início do século XVIII, os portugueses descobriram vastos depósitos nas montanhas do que é hoje Minas Gerais, e precisavam de um porto. O Caminho do Ouro descia pela Serra do Mar em ladeiras íngremes, pavimentadas com pedras, até chegar aqui, na boca da baía. Por décadas, Paraty foi um dos portos mais ricos do Brasil colonial. O ouro pagou os paralelepípedos, as paredes caiadas, as igrejas barrocas e as proporções extraordinárias das ruas.
Depois, uma nova estrada foi construída diretamente para Rio de Janeiro, contornando Paraty por completo. O comércio entrou em colapso. O porto virou um esquecido. E como não havia dinheiro para o desenvolvimento, nada foi demolido ou reconstruído. A cidade colonial foi deixada exatamente como estava, atrás de seu cinturão de montanhas verdes, enquanto o resto do Brasil se modernizava ao redor. Por acidente da pobreza, Paraty preservou o que quase todas as outras cidades brasileiras destruíram. Em 2019, enquanto estávamos ancorados na baía, a UNESCO incluiu a cidade em sua Lista do Patrimônio Mundial.
Entardecer sobre os paralelepípedos — os restaurantes espalham suas cadeiras pela rua enquanto a noite de Paraty começa
O centro histórico é uma zona de pedestres: não há carros permitidos. O único tráfego sobre rodas é o da charrete, a carruagem puxada a cavalo, que ainda chacoalha sobre os paralelepípedos irregulares como há três séculos. As próprias ruas são uma curiosidade de engenharia: inclinam-se suavemente em direção ao mar, e as pedras centrais são assentadas um pouco mais baixas do que as das bordas, de modo que na maré alta o mar sobe naturalmente pelas ruas, escoa pela calha central e recua — um sistema de drenagem autolimpante projetado por pessoas que compreendiam com precisão os ritmos das marés dessa baía.
A região ao redor de Paraty é a capital da cachaça no Brasil. As montanhas fornecem água limpa; a altitude e o clima aperfeiçoam a fermentação da cana-de-açúcar local. Os alambiques — pequenos alambiques de cobre artesanais — funcionam nos vales acima da cidade há séculos. As boutiques ao longo da Rua do Comércio vendem destilados envelhecidos de produtor único, com complexidade e personalidade totalmente diferentes da cachaça industrial dos supermercados.
Armazém da Cachaça — a cultura da cachaça em Paraty é tão antiga quanto a própria cidade
Um edifício de esquina no centro histórico — a ornamentação geométrica da fachada e a marcenaria azul profundo são características da arquitetura do século XVIII de Paraty
Chegamos no início de fevereiro de 2019, em duas visitas tranquilas sob um sol quente. Percorremos cada rua do centro histórico, paramos em restaurantes que haviam colocado suas mesas sobre os paralelepípedos, e ficamos por um bom tempo sob a grande figueira da Praça da Matriz observando Paraty mover-se no seu próprio ritmo. A cidade tem o efeito de desacelerar a mente até o ritmo de suas pedras.
Uma das igrejas coloniais de Paraty — a cidade tem quatro, cada uma construída por uma comunidade diferente: a classe dominante, africanos libertos, indígenas convertidos e pessoas escravizadas
Uma praça no centro histórico — em Paraty, os restaurantes tomam conta dos paralelepípedos e ninguém se importa
Perspectiva sobre os paralelepípedos — cada viela do centro histórico termina em uma vista como essa
Buganvílias sobre paralelepípedos molhados — mesmo numa tarde seca, as pedras guardam a umidade da última maré
A grande figueira da Praça da Matriz — a figueira vigia essa praça há mais tempo do que qualquer pessoa em Paraty consegue se lembrar
Hora dourada no centro histórico — as nuvens descem da Serra da Bocaina todas as tardes
Yuka na esquina de um dos edifícios mais marcantes de Paraty — o estuque decorativo e a marcenaria azul profundo datam da era dourada da cidade no século XVIII
Voltamos na terceira semana de fevereiro, na véspera de um festival local. As ruas estavam enfeitadas com bandeirinhas de papel torcido — do tipo que o Brasil pendura em toda festa junina e dia de santo — que capturavam a última luz e transformavam as vielas em algo entre um carnaval e um sonho. Encontramos uma mesa lá fora sobre os paralelepípedos e ficamos até as velas serem a única luz na praça, com a fachada da igreja erguendo-se escura atrás de nós.
Bandeirinhas de festa sobre os paralelepípedos — Paraty marca cada ocasião com papel, cor e música
Um café noturno em um belíssimo edifício colonial restaurado — Paraty transformou suas casas de comerciantes do século XVIII em alguns dos melhores restaurantes da costa brasileira
Jantar sobre os paralelepípedos com a igreja ao fundo — uma noite que durou mais do que o planejado, como sempre acontece em Paraty
Voltamos uma terceira vez no final de março, na manhã após uma chuva forte e uma maré de sizígia alta. Cada rua do centro histórico havia se transformado em um canal raso. O sistema de drenagem de marés — tão elegante na teoria — simplesmente havia excedido sua capacidade: o mar entrara pelas ruas, e ficara. Os moradores se locomoviam sobre tábuas. As charretes ainda circulavam, suas rodas levantando grandes leques de spray dos paralelepípedos. As igrejas barrocas erguiam-se das águas da enchente como se sempre tivessem ficado à beira-mar.
As enchentes acontecem duas ou três vezes por ano nas marés mais altas, especialmente após a chuva. Os moradores mantêm botas de borracha perto da porta e sabem quais rotas permanecem navegáveis. Os restaurantes movem suas cadeiras. As charretes não param. Em uma cidade que sobreviveu a três séculos de abandono, guerras coloniais, ao colapso do comércio do ouro e à longa indiferença do mundo moderno, um pouco de água do mar não é motivo de preocupação.
Maré alta nas vielas — a enchente transforma as ruelas estreitas de Paraty em canais, com as casas perfeitamente refletidas na água parada
A rua como espelho — cada portal e linha de telhado duplicados pela enchente
Na margem seca — uma bicicleta estacionada à beira da enchente, as fachadas coloniais perfeitamente espelhadas na água
Vadeando na esquina — o icônico edifício azul e ocre preside a cruzilhada alagada enquanto os moradores navegam com água até o tornozelo
A charrete não para — nenhum carro é permitido no centro histórico, e as charretes rodam independentemente da maré
A igreja na enchente — uma das quatro igrejas coloniais de Paraty, sua fachada de pedra do século XVIII erguendo-se da água da maré como se sempre tivesse ficado à beira do mar
A orla na maré alta — o calçadão desapareceu, a marina flutua ao fundo, e o barquinho de papel de alguém navega pela enchente com mais confiança do que todos nós